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Sucessão na China tem histórico turbulento

Xi deverá ser o primeiro beneficiado pelo fim do limite de dois mandatos para presidente, mas o próprio Deng Xiaoping, que introduziu medida em 1982, acumulou enorme poder sem ter sido chefe de Estado ou do partido

Porto Velho, RO
- A provável permanência de Xi Jinping para um terceiro período de cinco anos na Presidência da China tem chamado atenção pela ruptura com a prática dos últimos anos, já que ele seria o primeiro líder beneficiado pela emenda constitucional de 2018 que aboliu o limite de dois mandatos no cargo. Mas o ineditismo faz parte de uma história de sucessões turbulentas.

O limite foi introduzido na Constituição em 1982 por iniciativa do arquiteto da abertura econômica, Deng Xiaoping, com o intuito de evitar a concentração excessiva de poder que prevaleceu até a morte de Mao Tsé-tung, seis anos antes. 

Outra norma estabelecida com o mesmo fim foi a aposentadoria compulsória para membros do Partido Comunista que atingissem a idade de 68 anos, mas esta jamais foi institucionalizada. Xi tem 69 e a dúvida agora é se a flexibilização vai valer só para ele.

A tentativa de normalizar o sistema político não significou o fim da concentração de poder. Embora não tenha exercido oficialmente nenhuma das principais posições políticas, Deng manteve-se como a principal autoridade do país — segundo alguns historiadores, até sua morte em 1997, aos 92 anos. Zhao Ziyang, elevado a secretário-geral do PC em 1987, teria admitido que a palavra final em tudo era de Deng, e definiu-se como “um grande secretário”.

Dois anos mais tarde, Zhao caiu em desgraça ao simpatizar com os estudantes que participavam dos protestos da Praça da Paz Celestial. Perdeu o cargo e ficou em prisão domiciliar até morrer, em 2009. Durante a crise, Deng era o chefe da Comissão Militar Central (CMC), uma indicação de que na prática esse é o cargo com mais peso na tomada de decisões. 

Outro sinal disso é que Jiang Zemin, o sucessor de Zhao, deixou os cargos de presidente e secretário-geral do PC em 2002, marcando a primeira sucessão de poder estável na história da República Popular da China, mas manteve-se como chefe da CMC por mais dois anos.


A abolição do limite de mandatos presidenciais que deve permitir a permanência de Xi na liderança por mais cinco anos foi interpretada por muitos como um sinal verde para uma Presidência vitalícia e um retorno à era Mao. Embora para muitos chineses a concentração de poder em torno de Xi traga memórias amargas do culto à personalidade maoista, a estrutura de poder atual é muito diferente do que era naquela época.

Entre 1954 e 1959, Mao exerceu os três principais cargos da hierarquia nacional, chefe do PC equivalente ao atual secretário-geral), presidente e chefe da Comissão Militar. Em 1959, a Presidência passou para Liu Shaoqi, um dos arquitetos do PC, que exerceu o cargo por nove anos e era cotado para ser o próximo líder máximo. 

Mas, como tantos outros, Liu acabou esmagado por Mao. Denunciado como traidor capitalista, foi espancado na Revolução Cultural e morreu quase como indigente num hospital em 1969, sendo mais tarde reabilitado postumamente por Deng.

Com tal histórico de sucessões atribuladas, a permanência de Xi além dos dois mandatos é vista por muitos como um risco à troca de poder previsível dos últimos anos. Outros consideram a continuidade um antídoto contra a instabilidade que poderia atingir o país num momento de incerteza mundial. 

O fim do limite de tempo na Presidência elimina o risco de uma divisão na liderança do partido, acredita Lea Shih, analista do centro de estudos chineses Merics, com sede em Berlim.

É bom lembrar que os outros dois cargos centrais exercidos por Xi nunca tiveram limite constitucional de tempo: secretário-geral do PC e chefe da Comissão Militar. Um possível sinal de que Xi manterá o poder acumulado por um bom tempo é que não há nenhum sucessor à vista.

O atual congresso do PC ao menos deve apontar um novo primeiro-ministro, oficialmente o número dois na hierarquia comunista, mas nada garante que ele será o próximo da fila para liderar o país.


Fonte: O GLOBO

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